terça-feira, 10 de agosto de 2010

Recordações de um verão longínquo.

Posted by: David_g, autor Blog Cosmos.


Recordo-me dos tempos em que era uma criança pequena e irrequieta como todas, sempre à procura de novas e empolgantes aventuras. Quando no calor do verão e no auge das férias grandes, a rapaziada lá da rua se juntava e, em alegre alarido, abalávamos todos para a bouça mais próxima, na altura havia muitas, para brincar aos “índios e cowboys”. Era uma festa de imaginação e improviso, dos paus faziam-se pistolas e espadas, os arcos e flechas, mais elaborados e trabalhosos, exigiam um melhor e mais sábio aproveitamento da abundante matéria-prima que a natureza nos proporcionava. O grupo dividia-se então em dois, por um lado os “cowboys”, que na nossa inocente imaginação, fruto das influências cinematográficas e televisivas da época, eram sempre associados aos bons e vistos como uma espécie de heróis invencíveis! É claro que perante estas vantagens e como primeira escolha, todos queriam fazer parte deste primeiro grupo. Por outro lado, os preteridos ou os que de momento se sentiam mais inclinados e predispostos a encarnar tal figura, formavam o grupo dos “índios”, que por oposição detinham já a má fama e reputação de maus da fita, condenados assim à inglória sina de perdedores das disputas em causa.
No entanto e apesar deste conjunto de circunstâncias adversas e inferioridade notória, estas personagens, “os índios”, exerciam então em mim, um certo fascínio e admiração concludente. Admirava as suas roupas extravagantes, o colorido das suas penas que adornavam os longos e sedosos cabelos, as famosas pinturas de guerra impressas no rosto e nos corpos semi-nus, propiciavam ainda mais a estas figuras, um certo ar de surrealismo e fantasia. Mas o que mais me impressionava na imagem de tais e incompreendidos heróis, era a sua postura séria, a serenidade imperturbável dos seus rostos, descendo por íngremes falésias, ora atravessando intermináveis pradarias sempre montados em seus fogosos quanto lindos cavalos selvagens. Assim, quando se aproximavam do inevitável grupo de caras-pálidas, paravam a uma certa distância e o chefe da tribo, segurando em uma das mãos a lança empunhada com firmeza e legítimo orgulho, levantava então a outra e mostrando a palma da mão, saudava com voz grave e calma, porém determinada; “How!”. Era uma imagem que provocava em mim, intensos sentimentos de respeito, admiração e atracção perfeitamente invulgares!
Pena que os tais caras-pálidas, principalmente por manifesta falta de carácter e inteligência, nunca tenham aceite e muito menos compreendido, o que para a imaginação de uma simples criança, era tão óbvio e tangível…